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Uma outra economia está nascendo?


O povo que rebola ao som do tecnobrega em Belém pode até não saber, mas são eles o motor de uma das maiores inovações mundiais em termos de economia e cultura. Bandas como Calypso e afins nunca precisaram de gravadoras para lucrar milhões, e ganham tento que já tem até jato particular. A galera do funk carioca pode ainda não ter seu avião, mas também ganha dinheiro sem cair na paranóia do copyright. Estamos falando de música, mas não só de música. São novos modelos de negócio, que seguem uma nova lógica. Continua sendo economia de mercado, mas um mercado, com perdão da expressão surrada, alternativo, com novos meios de produção e distribuição vitaminados pelas novas tecnologias.

O nome “oficial” dessa história é Open Business (http://openbusiness.cc) –não que o pessoal do Calypso faça a mais remota idéia do que isso significa— e trata-se de um fenômeno econômico forte o suficiente para garantir uma mesa no iCommons (“The Enterprise Commons”). “O foco acaba saindo um pouco do indivíduo e caindo mais no comum (commons)”, opina Prodromos Tslavos, da London School of Economics durante sua apresentação. Mas a parte mais interessante, pelo menos para a turma do lado de baixo do equador, foi a pesquisa acadêmica acerca do Open Business, que na América Latina é coordenada por Carolina Rossini, professora da FGV-RJ que faz parte do Centro de Tecnologia e Sociedade (http://www.direitorio.fgv.br/cts) --coordenado por Ronaldo Lemos, representante do creative commons no Brasil.

No Brasil, a pesquisa está focada em três fenômenos musicais. O tecnobrega paraense, o funk carioca e o forró nordestino. O levantamento ainda está no início, mas já traz algumas conclusões interessantes. A mais importante delas é que podermos afirmar com segurança que sim, é possível ganhar dinheiro fora do modelo convencional de produção e distribuição cultural, calcado no copyright. A segunda pergunta é óbvia: como?

“É chamado modelo aberto por duas razões básicas: por tratar a propriedade intelectual de forma mais flexível e por serem cadeias econômica mais horizontais, com menos intermediários”, explica a jovem professora.

Nesse segundo aspecto, o Open Business lembra a Economia Solidária, outro fenômeno, também estudado academicamente e apoiado pelo governo brasileiro, e que vem ganhando força nas periferias do Brasil. A diferença é que na economia solidária a questão da não-exploração do próximo e do cooperativismo são a base da estrutura. Mas voltemos ao Open Business.

Afinal, como ganhar dinheiro abrindo mão do direito autoral?


Peguemos o exemplo mais emblemático, o da banda Calypso. O grupo não trata seus CDs como forma de lucrar, e sim como uma peça de propaganda. A pequena margem de lucro fica toda com os camelôs responsáveis pela distribuição de toda produção. Tudo pode ser gravado e vendido por qualquer um numa boa, copyright é uma palavra à parte dessa relação. Com o preço baixo, os CDs do Calypso vendem em quantidade industrial no norte do país, alavancando o sucesso do grupo. Seus shows reúnem 10 ou 20 mil pessoas, e a banda faz uma quantidade considerável de apresentações por mês. Cabe perguntar se, vendendo CDs no esquema padrão, a R$ 30 (com quase todo lucro indo para uma grande gravadora), o Calypso seria tão conhecido, faria tantos shows e já teria até ido a Gugus e Fastões da vida. Modestamente, acho que não.

A banda ganha dinheiro também vendendo DVDs. Mas não são quaisquer DVDs. São DVDs gravados ao vivo e vendidos na saída do próprio show. A sacada está dando certo, e aumenta a poupança dos reis do tecnobrega, até porque, novamente, não há intermediários.

Enfim, o que tem valor não é mais a mídia em si, e sim a relação que o artista cria com seu público. É uma lógica que faz todo sentido, especialmente lembrando que quase nenhum artista, a não ser os extremamente famosos, ganha dinheiro de fato com CDs. Aliás, mesmo um Jota Quest ou um Chitãozinho da vida ganha uma grana preta mesmo é com shows, livres, pelo menos por enquanto, da facada das gravadoras. Mais do que isso, as grandes gravadoras nacionais, juntas, não lançaram 50 CDs ano passado no Brasil. Ou seja, como costuma dizer Ronaldo Lemos, se você é um novo artista e pretende ganhar dinheiro vendendo CDs, sendo descoberto e lançado por uma gravadora convencional, pode desistir e começar a jogar bola para virar um craque e ir para a Europa. A peneira é bem menor.

O funk carioca, por sua vez, se não grava DVDs, ganha seus trocos (às vezes muitos trocos) também com shows e com suas aparelhagens. Um artista canta a música do outro numa boa. Uma equipe também toca a música da outra e vamos em frente, e aí todo mundo ganha com os bailes.

Software Livre já está nessa faz tempo


É importante ressaltar que o movimento do software livre já sacou há muito tempo que não é preciso explorar o copyright para se ganhar dinheiro. “Eles ganham customizando os softwares para as empresas, e também com manutenção e consultoria, por exemplo”, analisa Carolina. Ou seja, ninguém cobra R$ 1.400 por uma licença de Office e todo mundo sai feliz.

Cinema nigeriano é o maior do mundo. E lá o copyright nem existe

Pegando uma ponte aérea Brasil-África, surge outro exemplo bacana. A Nigéria, país no qual ainda nem existe lei de diretos autorais, a produção cinematográfica é a maior do mundo. Maior do que Hollywood ou do que a indiana Bollywood. E o país nem tem salas de cinema. Como funciona essa loucura? As pessoas produzem filmes em DVDs e vendem nos camelôs. Simples assim. E produzem centenas de filmes por ano, que são vendidos, a preço bem baixo, em milhares de camelôs por todo país --que, vale lembrar, tem mais de mais de 130 milhões de habitantes. E o mais incrível é que esse sistema funciona muito bem. Tremendo Open Business.

Enfim, bons exemplos no Brasil e mundo afora não faltam. Quase todos eles são praticados sem nenhum tipo de consciência sobre o que é open business, creative commons e afins. São, sim, baseados na vida real, na necessidade, no vácuo das restrições do mercado tradicional e das grandes empresas. E o mais legal é que tem funcionado e crescido. Mas a resposta à questão do título ainda está por vir.